--> Perguntas espreitam no escuro, como corujas <--

24 Outubro, 2009

Fiapos de Permanência


à Cidade de Goiás


Lembro o vento frio que me deixava cheia de pressentimentos, com um certo orgulho. Era bom estar absorta, entre vultos e sussurros que ninguém mais percebia. Mas sem alheamento. Cabiam nos meus devaneios as coisas corriqueiras, e até essas eu parecia entender melhor, naquelas horas. Nem faz tanto tempo assim.
Abri mais a janela e fiquei olhando a rua que desaguava no beco. Morar num beco era um orgulho a mais, lugar de encontros, de risos baixos, de causos em verso – lugar que encerra. E ainda calçado por aquelas pedras todas, grandes, pesadas. Começou a cair um chuvisco fininho, e eu me perguntei até que ponto a chuva pode diluir as marcas que a peleja do povo já deixou naquelas pedras, desde que se encravaram ali. O sangue da pele lavrada dos escravos, o suor, a gastura dos cascos, do ferro. E outras coisas menos importantes, lágrimas talvez. Queria acreditar que sobravam alguns indícios.
Meu consolo eram os ecos, que me atravessavam desde menina. Esses, o tempo não gastava. Deve ser porque vibram primeiro dentro, depois é que ressoam do lado de fora. De vez em quando, surgiam uns bem antigos, tão distintos que se faziam ouvir, mesmo eu muito distraída. Aí, o assombro era maior. Um arrepio bom, que nem quando temos um desejo e de repente tocam os sinos das igrejas. Respostas caras.
A chuva continuava, fina, lenta, já me cansava. Uma dorzinha incômoda começou a se alastrar, e então foi que clareou a razão da minha pressa. Eu havia marcado para aquele dia o fim de uma espera que se arrastava. Sentei-me no parapeito da janela, com as pernas encolhidas. Tentei ouvir algum sussurro, algum eco, mas eles já não tinham onde pousar. Quando dei por mim, estava tomada. Uma melancolia densa, viscosa. Cantarolei uns versos que meu pai gostava de ensinar, até que o chuvisco parou de vez. Só o vento continuava. Tão constante que dava inveja. Saltei pro outro lado e abri pela última vez a caixinha de ferro. Devia ser junho, porque os cravos brancos estavam mais alegres.
- Mãe, vou levar umas flores pra vó.
Não esperei a resposta, nem colhi flores. Corri até meu quarto e peguei um caderninho, lápis e borracha, e subi a ladeira do cemitério. Ali eu podia chorar sem especulação. Foi o que mal pensei, porque avistei umas pessoas limpando o mármore de seus mortos. Olhei para elas e não consegui chorar. Minha tristeza sem morte parecia pecado. A vó estava enterrada ali, mas seu túmulo era antigo demais pra sustentar meu desgosto. Fiquei quieta uns minutos pra não chamar atenção e resolvi subir até a igrejinha de Santa Bárbara, estava perto.
Nos tantos degraus, eu ia acalentando aquela tristeza culpada, tentando acalmá-la, distrair sua birra. Respirava fundo, abria os braços e as mãos pra sentir melhor o vento (digo: uma das mãos, porque na outra estava o caderno). Lá em cima, tirei os chinelos. Lembro-me bem disso, de sentir a pedra-sabão contra os meus pés, fria, meio molhada. O emaranhado de nomes e datas que se estendia pelo chão, esculpido na pedra, descansava parte da minha ânsia por rastros concretos.
Naquele mirante, a cidade inteira cabia em meu olhar, tão serena em seus contornos antigos, no vai-vem barroco de suas curvas, que parecia capaz de absorver mais alguns séculos de incoerência sem perder a beleza. Pouco a pouco, as imagens e o silêncio me fecundavam. Sentei-me com o caderno apoiado nos joelhos. Àquela altura, eu já estava comovida. Nem as portas fechadas da igrejinha me incomodavam como antes. Mas eu sabia que, mal voltasse pra casa, de novo se instalaria o vácuo, com todo o seu peso e seus gordos fantasmas. Era preciso que aquele instante desse algum fruto para eu levar comigo. Foi aí que começou a surgir o poema. Em tudo singular. Do intervalo em que tomou forma, não recordo absolutamente. Somente o depois, quando me precipitei pela escadaria e corri pra casa... uma pressa inexplicável de passar tudo a limpo. A tinta.





Fevereiro de 2005

28 Março, 2009

Ais

Tantas vezes você avisou que viver é mesmo perigoso! Me diz o que que eu faço, João, com todas essas veredas inundadas, inundando tudo, e aquela sereia de Santo Amaro me chamando! - eu, que sou do cerrado, tão acostumada com a seca... se eu afogar no meio da travessia, será essa a minha margem de erros ?

26 Março, 2009

Marés

Deixe o seu sorriso me acordar por mais um dia
pra eu não mergulhar neste silêncio já gasto,
porque minhas profundezas
são cheias de veleiros naufragados
e de Quases muito tristes
onde a beleza abstêmia das sereias nos acorrentam.

Escolha de Maria



Essa beleza desorienta meus fados,
faz minhas certezas arderem
numa fogueira de expressões tão sonoras,
que nem tenho retórica se você me inquirir.

Meus tormentos, ensolarados
pela sua voz,
riem dos próprios reflexos.
Até os determinismos, seduzidos,
convidam as escolhas pra dançar.

Sua presença me salva da saudade estéril
de tempos passados
e desperta acordes sofisticados
entre minhas dissonâncias.

Mas tem dias em que não posso ouvir,
em que preciso de sons pastéis,
diluídos no chá das tardes brancas.

Dias em que procuro toques que me elevem sem arrebatar
senão esqueço o pão de cada dia
e como Maria de Betânia
escolho a melhor parte,
derramo todo o perfume nos seus pés,
deixo a cama desfeita, deixo a poeira em paz.



11 Setembro, 2008

Carmim

Seu olhar de nuvens carregadas
aplaca minhas rugas mais severas.
Por trás das retinas, as tempestades
bradam por perdão, obstinadas.

A lógica vermelha de seus caminhos
desarma as peças do meu xadrez
e perco todas as partidas.

21 Maio, 2008

Tons menores




Só aprendi
a dizer palavras graves.

Recrio a cada dia
o chão de pedras que me ampara.

Sinta antes o peso em meus olhos,
minha voz e meus gestos
- esta nudez tão austera.

Se quer compor desafios
pra sustentar meu canto,
que venha com passos rijos,
mãos livres, trajes leves
e calos antigos.

Ou volte aos caminhos abertos
antes que escureça demais
pra partir sem armas brancas;
antes que a chuva provoque deslizes
ou antes que sua armadura
arranhe a claridade obscena
das paredes que me contornam.





Arte: Auguste Rodin

10 Março, 2008

Não foi o tempo que abarca vastamente,
não, deve ser o que se conta aos pedaços,
reconta, em mesquinha soma, e medrosa.
Na foi o prometido, o esperado, antes foram os engodos,
o adiantamento sempre roubos, pequenos e de importância...
não foi o alegre, foi o pouco a pouco, não foi o claro, foi o difuso,
pois os encargos se chegam logo, e se aprendem, e ficam.

(Ricardo Ramos)

Deram-me essa argila de palavras
mas a perda, líquida, transborda,
escapa dos meus moldes.
Estou trespassada de ânsias
e minha confiança não alcança mais as mãos estendidas.

As cordas que levo na garganta
rompem-se antes do próximo mistério.
(novembro, 2007)

30 Agosto, 2007

Contra-canto

Roubo-lhe a pena, antes que anoiteça.
Quero minha travessia
na contramão dos mitos.

Não vou dançar nessas quadrilhas
cantando pesares ancestrais.
Calem-se os velhos oráculos,
que sei das tarefas a cumprir.

Enfrentar sua Esfinge
e inventar um contratempo em nossa dança.
Abrir, torcer os círculos dessa geometria rasa
e desfechar em nós.

Arredondar refrãos,
antes que meu nome encontre seu reflexo
nos versos trágicos de algum poeta triste.

Há muito tempo, há tempo demais
Eco amava Narciso
............que amava Narciso
.......................que amava Narciso...

27 Agosto, 2007

Rosário

dezembro, 2005
(a Ir. L. M.)

Nem todos os muros puderam conter
o vendaval de significância
que seus passos anunciavam.

Nas frestas das palavras
nasceram flores irredutíveis.

Um leve toque entre Ave-Marias tantas,
restos de olhares nas distâncias,
sorrisos que fu(l)giam aos rigores...

Em terra de silêncios,
regadas por renúncias,
cobertas com a seda das sutilezas,

você adivinhou a coerência
dos meus fragmentos esparsos.
Construiu enredos
nos labirintos da minha estrutura.

Você, a perfeita mediação
para minhas preces.
Amém.

09 Agosto, 2007


Espaço prenhe de conceitos
e pré-conceitos
entre tuas mãos
e os meus peitos
(Yêda Schmaltz)
Recto tono


Esta falta de um canto
pra eu me encolher,
pra guardar interditos
e limpar os olhos.

Não sobraram penumbras
pra nossas rugas descansarem
em paz.

Padeço de lucidez. Demasias a rigor.
Falas. Falácias. Falências.

Meus vãos se foram, arados
num latifúndio de signos.

Esta sede de sombra e silêncio:
reentrâncias contraídas
do meu corpo.
E o mel nativo
escorre na erosão
com a próxima chuva.

Queira Deus que antes disso
ele, o homem,
me cubra com seu manto
e falemos, à margem.
Em surdina, tons menores.
Voz ativa. Sim-cronia.
Outros cantos.

15 Maio, 2007




Jardim Fechado

Meu colo lateja em desperdício.

Torso e seios - caule e pétalas:
lírio branco esquecido nos lençóis
enquanto ele chora em cômodos vazios.

Este zelo derramado nas calçadas
ameaça cortar meus pés descalços.

Eu quis abraçar sua paixão honesta,
heroicamente articulada,
e aquela mágoa
escondida atrás as lentes,
diluída em comprimidos de razão

...teias de romantismo condoreiro
com que me cubro.

19 Abril, 2007

Escrita

Erótica é a alma.
(Adélia Prado)


Sua presença dilata meu ventre.
Mística entornada
no corpo.

Encosto-me de viés na sua cadeia de signos
pra me aquecer.
Mas são muitas flores em botão, prometidas
que precisam ver o sol de frente.

Isto não é um poema,
é a constatação do não-sublimado,
da latência que resiste, seta em curso.
Depois das palavras, ainda quero.



Imagem: Salvador Dali

11 Abril, 2007


Eu não sei dos artifícios. Sei de um vento leve na nuca e um tremor doce nas mãos quando as coisas me parecem verdadeiras.
E sei que tudo é aéreo demais, pra eu segurar.
Sigo com dor nas costas.

04 Abril, 2007

Confitétur



Minha estrutura adoeceu, e meu jardim foi amputado.
Vejo na saliência dos meus ossos a memória do meu pai.
As fibras do seu riso, ecoando em corredores de hospitais. Resistência que não herdei.
O senhor brincava com as próprias dores, fazia anedotas sobre a morte, embora naquela última fotografia já não pudesse sorrir, fizemos até careta, lembra? Estava cansado.
Os ossos do meu pai, a perda que ameaçava, saliente, nos pesadelos nossos de cada dia, um ano, dois, três.
Eu nunca aprendi as suas piadas, muita coisa guardo inapreendidas.
Choro à toa, perco alguns quilos e já caio por aí.
Nasci com pouca competência pra alegria, tropeço fácil nos confetes.
Agora, fecho os olhos e vejo estilhaços. Há morte demais nos meus sonhos. Pedaços desconexos, destroços de coisas e de gentes. Fiapos de alma, decompostos.
Mea culpa, mea culpa. Olho pras estrelas e rezo em latim, minha expressão um tanto menos gasta. Relíquias do meu baú de peregrina. Coisas que guardei do caminho. Miserere mei Deus, secundum magnam misericordiam tuam. Perdão porque não soube acreditar e falhei em cuidar dos seus presentes, segurei com tanta força que os deixei quebrar.
Pelas vezes em que me agarrei à túnica da morte, insistindo, incapaz e inapta.
Por mim e pelos que insistiram mais... Loraine, quinze anos e já amortalhada de tanta tristeza. Romildo, prostrado sob o peso do equívoco, na precipitação embriagada, fatal. Estendo-lhes as minhas mãos quebradas, vamos pedir juntos, perdão, perdão! Vocês atravessaram, e eu continuo aqui, então preciso enfaixar meus dedos (como, ainda não sei) e acender velas pra nós, os que sabem dos abismos. Os des-graçados. Os tortos, por nascença ou circunstância. Os doentes estruturais.
Estendo as palavras, como gaze para estancar a hemorragia. O jardim já havia fincado raízes nos meus órgãos vitais. Os cortes estão abertos, a seiva ainda escapa, porque as palavras são poucas e tênues.
Não é fácil convalescer de cortes invisíveis. Sustentar o peso das esperas que eu mesma não compreendo. Passar pelo túnel do luto, eu e este medo ancestral do escuro... Grito pelos anjos em quem já não acreditava. Vocês, que seguraram minhas mãos, que romperam as cordas da minha partida. Vocês, que me desarmaram, ensinem-me agora o caminho de volta. Fui trazida até aqui por uma corrente de erros, não sei como se faz... não sei.


Quarta-feira, Maio 24, 2006


Imagem: «O Anúncio à Virgem», em Hadzor, Worcestershire, Reino Unido.