
à Cidade de Goiás
Lembro o vento frio que me deixava cheia de pressentimentos, com um certo orgulho. Era bom estar absorta, entre vultos e sussurros que ninguém mais percebia. Mas sem alheamento. Cabiam nos meus devaneios as coisas corriqueiras, e até essas eu parecia entender melhor, naquelas horas. Nem faz tanto tempo assim.
Abri mais a janela e fiquei olhando a rua que desaguava no beco. Morar num beco era um orgulho a mais, lugar de encontros, de risos baixos, de causos em verso – lugar que encerra. E ainda calçado por aquelas pedras todas, grandes, pesadas. Começou a cair um chuvisco fininho, e eu me perguntei até que ponto a chuva pode diluir as marcas que a peleja do povo já deixou naquelas pedras, desde que se encravaram ali. O sangue da pele lavrada dos escravos, o suor, a gastura dos cascos, do ferro. E outras coisas menos importantes, lágrimas talvez. Queria acreditar que sobravam alguns indícios.
Meu consolo eram os ecos, que me atravessavam desde menina. Esses, o tempo não gastava. Deve ser porque vibram primeiro dentro, depois é que ressoam do lado de fora. De vez em quando, surgiam uns bem antigos, tão distintos que se faziam ouvir, mesmo eu muito distraída. Aí, o assombro era maior. Um arrepio bom, que nem quando temos um desejo e de repente tocam os sinos das igrejas. Respostas caras.
A chuva continuava, fina, lenta, já me cansava. Uma dorzinha incômoda começou a se alastrar, e então foi que clareou a razão da minha pressa. Eu havia marcado para aquele dia o fim de uma espera que se arrastava. Sentei-me no parapeito da janela, com as pernas encolhidas. Tentei ouvir algum sussurro, algum eco, mas eles já não tinham onde pousar. Quando dei por mim, estava tomada. Uma melancolia densa, viscosa. Cantarolei uns versos que meu pai gostava de ensinar, até que o chuvisco parou de vez. Só o vento continuava. Tão constante que dava inveja. Saltei pro outro lado e abri pela última vez a caixinha de ferro. Devia ser junho, porque os cravos brancos estavam mais alegres.
- Mãe, vou levar umas flores pra vó.
Não esperei a resposta, nem colhi flores. Corri até meu quarto e peguei um caderninho, lápis e borracha, e subi a ladeira do cemitério. Ali eu podia chorar sem especulação. Foi o que mal pensei, porque avistei umas pessoas limpando o mármore de seus mortos. Olhei para elas e não consegui chorar. Minha tristeza sem morte parecia pecado. A vó estava enterrada ali, mas seu túmulo era antigo demais pra sustentar meu desgosto. Fiquei quieta uns minutos pra não chamar atenção e resolvi subir até a igrejinha de Santa Bárbara, estava perto.
Nos tantos degraus, eu ia acalentando aquela tristeza culpada, tentando acalmá-la, distrair sua birra. Respirava fundo, abria os braços e as mãos pra sentir melhor o vento (digo: uma das mãos, porque na outra estava o caderno). Lá em cima, tirei os chinelos. Lembro-me bem disso, de sentir a pedra-sabão contra os meus pés, fria, meio molhada. O emaranhado de nomes e datas que se estendia pelo chão, esculpido na pedra, descansava parte da minha ânsia por rastros concretos.
Naquele mirante, a cidade inteira cabia em meu olhar, tão serena em seus contornos antigos, no vai-vem barroco de suas curvas, que parecia capaz de absorver mais alguns séculos de incoerência sem perder a beleza. Pouco a pouco, as imagens e o silêncio me fecundavam. Sentei-me com o caderno apoiado nos joelhos. Àquela altura, eu já estava comovida. Nem as portas fechadas da igrejinha me incomodavam como antes. Mas eu sabia que, mal voltasse pra casa, de novo se instalaria o vácuo, com todo o seu peso e seus gordos fantasmas. Era preciso que aquele instante desse algum fruto para eu levar comigo. Foi aí que começou a surgir o poema. Em tudo singular. Do intervalo em que tomou forma, não recordo absolutamente. Somente o depois, quando me precipitei pela escadaria e corri pra casa... uma pressa inexplicável de passar tudo a limpo. A tinta.
Fevereiro de 2005






